Esses dias ouvi Rossandro dizer uma coisa que gostei: maturidade também é aprender a falar «não» sem sentir que precisamos apresentar uma defesa inteira logo depois. Porque o «não» é uma frase completa. Isso não significa ser grosseira, não conversar ou não explicar nada nunca. Há relações em que queremos explicar: por carinho, contexto, parceria. A diferença é outra. Explicar porque eu quero é muito diferente de explicar porque sinto que preciso convencer o outro de que tenho o direito de dizer não. Às vezes a explicação vira uma tentativa de conseguir autorização pro próprio limite. E limite que depende da concordância do outro deixa de ser exatamente um limite. E isso vale muito pra negócios. Tem cliente que ultrapassa o combinado. Tem projeto que cresce sem que o preço cresça junto. Tem mensagem respondida fora de hora até que estar disponível o tempo inteiro vira o novo normal. Tem trabalho refeito silenciosamente porque parece mais fácil fazer sozinha do que ter uma conversa desconfortável. E tem aquele excesso de entrega que parece generosidade (e às vezes é), mas que também pode esconder uma pergunta: será que o que eu faço já é suficiente? No meu livro Travessia, escrevi sobre limites colocados com firmeza e gentileza. Continuo gostando muito dessas duas palavras juntas. Firmeza e gentileza. Porque limite sem firmeza vira sugestão. E limite sem gentileza pode virar muro. Por isso, depois de pensar bastante, eu mudaria um pouco a frase que abriu esta carta. Impor limites não afasta quem te ama, afasta quem te usa. |
Pode acontecer. Mas não é sempre assim. Quem nos ama também pode se incomodar com um limite. Pode discordar. Pode ficar frustrado. Pode preferir a versão de nós que dizia sim com mais facilidade. Isso não transforma automaticamente ninguém em vilão. Limite não é um detector de pessoas ruins. É a linha que mostra onde eu termino e o outro começa. O lugar a partir do qual consigo me relacionar, trabalhar, amar, entregar, sem precisar desaparecer. Até aqui eu vou. Daqui pra frente, não. E talvez o primeiro limite nem seja com o outro. Talvez seja comigo mesma: eu não preciso mais dar tanto de mim pra provar que tenho valor. Amanhã tem outra carta na mesa. Com amor, Déa |