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Andrea Felicio Cartas na Mesa
ED 10

Até aqui

Ninguém acorda um dia e decide deixar de ser quem é. A gente pode ir desaparecendo aos poucos

por Andrea Felicio

A carta de hoje: A importância do não na nossa vida

A carta de hoje: A importância do não na nossa vida

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Esses dias salvei uma frase no Instagram:

Impor limites não afasta quem te ama, afasta quem te usa.

Achei fortíssima.

E imediatamente me lembrei de uma conversa de mentoria.

Não vou contar quem é a pessoa nem detalhes que possam identificá-la. Mas tem uma frase dela que ficou comigo:

Vivi a vida toda vivendo uma vida que eu não queria viver, atendendo às expectativas dos outros.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 

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I  A conversa

Quanto eu preciso dar pra continuar sendo aceita?

Não foi uma frase solta.

Ela vinha me contando como, durante anos, foi se acostumando a questionar as próprias escolhas. Uma roupa. Uma vontade. A ideia de fazer alguma coisa diferente.

Ela se sentia julgada e, em vez de pensar simplesmente «essa pessoa discorda de mim», começou a fazer outra coisa: duvidar de si.

Será que eu estou exagerando?

Será que escolhi errado?

Será que o problema sou eu?

E o mais interessante é que esse padrão não aparecia apenas nas relações pessoais. Um dia, falando sobre trabalho, ela soltou:

Quanto mais eu dou, menos o cliente reconhece.

Ela cobrava pelo atendimento e, além de entregar o que havia sido contratado, ainda colocava coisas a mais. Chegou a me contar que entregava suplementos do próprio bolso.

A intenção era boa.

Mas eu fiquei pensando: por que ela precisava entregar tanto além do que tinha combinado?

Generosidade?

Ou uma necessidade de garantir que o outro percebesse o valor dela?

Talvez um pouco dos dois.

E foi aí que as duas histórias se encontraram pra mim. Na relação pessoal, ela cedia pra não desagradar. No trabalho, entregava mais pra ser reconhecida. Em lugares completamente diferentes, aparecia a mesma pergunta:

quanto eu preciso dar, ceder ou me adaptar pra continuar sendo aceita?

 
 

II  A carta

Quando adaptação vira desaparecimento

Isso me fez voltar pra outra frase daquele post:

Se você sempre se adapta, em que momento você é você?

Essa pergunta também bateu em mim.

Porque adaptação sempre foi uma habilidade importante na minha vida. Cresci mudando de países, línguas, escolas, culturas. Depois trabalhei em empresas e ambientes muito diferentes. Mudei de carreira. Empreendi. Recomecei algumas vezes.

Eu sei me adaptar. E acho uma baita qualidade.

O problema é quando adaptação vira desaparecimento.

Quando você muda uma escolha pra evitar comentário. Deixa de sugerir alguma coisa porque já imagina a reação. Engole um incômodo porque não quer outra discussão.

Dá uma segunda chance. Depois uma terceira.

No trabalho, entrega mais um pouquinho. Depois mais um.

Vai cedendo um pedacinho aqui, outro ali.

Ninguém acorda um dia e decide deixar de ser quem é. A gente pode ir desaparecendo aos poucos.

E talvez por isso uma das Cartas de Insight combine tanto com essa conversa. Ela se chama «A importância do não na nossa vida». E diz:

Dizer "não" é importante, pois estabelece limites, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Quando dizemos "não" para alguém, também estamos dizendo um "sim" para nós mesmos.

Eu sempre gostei dessa carta. Mas agora esse «sim» ganhou outro significado pra mim.

Não é só: sim, vou me priorizar.

É: sim, eu confio na minha percepção. Sim, a minha vontade também entra na conta. Sim, o que eu entrego já tem valor. Sim, eu posso discordar. Sim, eu posso cobrar pelo meu trabalho sem precisar compensar entregando sempre alguma coisa a mais.

A dificuldade não é apenas dizer «não» pro outro. Às vezes é conseguir sustentar o próprio «sim».

 
 
 

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III  O limite

Até aqui eu vou

Esses dias ouvi Rossandro dizer uma coisa que gostei: maturidade também é aprender a falar «não» sem sentir que precisamos apresentar uma defesa inteira logo depois.

Porque o «não» é uma frase completa.

Isso não significa ser grosseira, não conversar ou não explicar nada nunca. Há relações em que queremos explicar: por carinho, contexto, parceria.

A diferença é outra. Explicar porque eu quero é muito diferente de explicar porque sinto que preciso convencer o outro de que tenho o direito de dizer não.

Às vezes a explicação vira uma tentativa de conseguir autorização pro próprio limite. E limite que depende da concordância do outro deixa de ser exatamente um limite.

E isso vale muito pra negócios.

Tem cliente que ultrapassa o combinado. Tem projeto que cresce sem que o preço cresça junto. Tem mensagem respondida fora de hora até que estar disponível o tempo inteiro vira o novo normal. Tem trabalho refeito silenciosamente porque parece mais fácil fazer sozinha do que ter uma conversa desconfortável.

E tem aquele excesso de entrega que parece generosidade (e às vezes é), mas que também pode esconder uma pergunta: será que o que eu faço já é suficiente?

No meu livro Travessia, escrevi sobre limites colocados com firmeza e gentileza. Continuo gostando muito dessas duas palavras juntas.

Firmeza e gentileza.

Porque limite sem firmeza vira sugestão. E limite sem gentileza pode virar muro.

Por isso, depois de pensar bastante, eu mudaria um pouco a frase que abriu esta carta.

Impor limites não afasta quem te ama, afasta quem te usa.

Pode acontecer. Mas não é sempre assim.

Quem nos ama também pode se incomodar com um limite. Pode discordar. Pode ficar frustrado. Pode preferir a versão de nós que dizia sim com mais facilidade.

Isso não transforma automaticamente ninguém em vilão.

Limite não é um detector de pessoas ruins. É a linha que mostra onde eu termino e o outro começa. O lugar a partir do qual consigo me relacionar, trabalhar, amar, entregar, sem precisar desaparecer.

Até aqui eu vou.

Daqui pra frente, não.

E talvez o primeiro limite nem seja com o outro. Talvez seja comigo mesma:

eu não preciso mais dar tanto de mim pra provar que tenho valor.

Amanhã tem outra carta na mesa.

Com amor, Déa

 
 
 

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Cartas na Mesa

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