- Andrea Felicio
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Já Teve Medo de Dizer Adeus? Eu também.
Laboratório do Ser - Edição #035

Queridos que me acompanham por aqui,
Sei que faz muito tempo que não sento para escrever para vocês (nem para mim mesma) e talvez alguns de vocês estejam sentindo falta das Newsletters. Assim espero. Eu estava com saudades de escrever.
Precisei de um longo período para elaborar o fim de um ciclo importante na minha vida. Ainda não posso revelar o que decidi encerrar, porque envolve outra pessoa e também porque meu coração ainda precisa de mais um tempo debaixo de muitos cobertores quentinhos para voltar a bater com força. Não me sinto pronta para compartilhar todos os detalhes com vocês.
Para não assustar amigos mais próximos e familiares, só vou dizer que meu casamento vai muito bem. Aliás, estamos vivendo uma fase incrível. Não vou me separar e não estou doente de novo. Fiquem tranquilos.
Já falei para vocês que escrevo mais para mim mesma do que para os outros e hoje acordei com um aperto no coração. Corri para meu computador e abri minha Newsletter. Engajamento no chão, afinal, nunca mais escrevi nada.
Perdi 100 assinantes e isso me entristeceu. Não porque preciso de milhares de leitores – isso só seria combustível para o meu ego. Fiquei triste comigo mesma, porque quando abri esse canal de comunicação, com a intenção de fugir das conversas rasas do Instagram, me orientei pelos valores fundamentais da minha marca: trazer CURA, ORIENTAÇÃO e EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA.
Imersa na minha dor, busquei refúgio no silêncio. Mas, em um mundo de violência, guerra e medo, calar-se traz consequências devastadoras.
Ao abrir a página em branco, as lágrimas escorreram com força, livres, soltas. Choro bom. Daqueles que abrem espaços nos poros, na pele, na alma.
Então eu escolhi voltar. Do jeito que dá. Porque fiz um compromisso comigo mesma, com a minha palavra e com o cara lá de cima.
Hoje quero falar sobre como lidar com encerramentos de ciclos, começando pela minha própria jornada com as despedidas.
Morcegos no Céu e o Fim que Eu Não Vi Chegar

Lembro-me bem do dia em que minha mãe comunicou que iríamos embora da África. Eu tinha oito anos e a Costa do Marfim era meu paraíso pessoal.
Era apaixonada pelo calor que abraçava a cidade, pelos finais de semana preguiçosos sentados na areia dourada da praia, onde o tempo parecia se dissolver no horizonte infinito, pelos passeios na lancha da minha amiga Aline, cortando as águas mornas do Atlântico africano.
Os mercados eram um espetáculo à parte: pilhas de especiarias criavam montanhas de vermelho, amarelo e marrom, frutas tropicais pintavam o ar com seus tons vibrantes, enquanto as mulheres africanas carregavam seus pequenos embalados em panos amarrados em suas costas, numa versão africana de um sling.
Acima de tudo, eu era apaixonada pelo povo de Abidjan. Eles eram acolhedores, amorosos, donos de uma sabedoria ancestral que transbordava em cada gesto.
Seus sorrisos largos brilhavam como luas crescentes, os dentes brancos em contraste com a pele escura, a abundância de uma vida que não é pautada no tempo como nós ocidentais o conhecemos. Tudo em Abidjan tinha mais sabor, mais tempero, mais vida – como se ali o mundo pulsasse em cores mais vibrantes.
Naquele dia fatídico, o vento quente, como de costume, acariciava meus cabelos. Olhei para o céu e vi uma nuvem escura, achei que fossem pássaros, mas eu sabia bem que era época de morcegos. Os morcegos dançavam sua coreografia sombria – um ballet negro contra o crepúsculo alaranjado.
Deveria ter mais atenção aos sinais. Morcegos não costumavam trazer boas notícias.